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Consumir alimentos fritos realmente faz mal à saúde do coração?

Sabemos que esse tipo de alimentação pode contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, porém não está claro se os alimentos fritos, populares em todo o mundo e comuns no padrão alimentar ocidental, afetam a saúde do coração.
 
Por isso, um grupo de pesquisadores da China resolveu investigar a associação entre o consumo de alimentos fritos e o risco de doenças cardiovasculares, publicando recentemente os resultados desse estudo na revista Heart.
 
Quais são as doenças cardiovasculares?
 
Antes de mostrar para você como esse estudo foi realizado, acho válido esclarecer o que são e quais as principais doenças cardiovasculares. Trata-se de um grupo de distúrbios que afetam o coração e os vasos sanguíneos, sendo, em sua maioria, prevenidas com um estilo de vida saudável. Algumas das doenças cardiovasculares são:
 
  • Insuficiência cardíaca: é a principal causa de internações por doenças cardiovasculares registrada no SUS (Sistema Único de Saúde). Consiste em uma dificuldade do coração em bombear sangue para o corpo ou de contribuir para o retorno venoso, ou seja, transportar o sangue pobre em oxigênio para o coração.
  • Doença arterial coronariana: tem como principal manifestação o infarto agudo do miocárdio, que é a causa de morte isolada mais comum no mundo. Nesse caso, as artérias desenvolvem placas de ateroma, um acúmulo de gordura, sangue, tecido fibroso e outros compostos, que podem se romper, liberar substâncias inflamatórias e formar um trombo. O trombo estreita o espaço dentro da artéria e impede o fluxo de sangue para o oxigênio, provocando o infarto.
  • AVC (Acidente Vascular Cerebral): também chamado de derrame, está intimamente relacionado às doenças cardiovasculares, pode ocorrer pelo rompimento ou obstrução de vasos, dificultando o transporte de sangue e oxigênio para o cérebro.
Agora, voltemos ao estudo. Para determinar a associação entre o desenvolvimento desse tipo de doenças e o consumo de alimentos fritos, os pesquisadores buscaram em bancos de dados (PubMed, EMBASE e Web of Science) estudos relevantes publicados até abril de 2020, sendo selecionadas 17 pesquisas. Essas pesquisas envolveram 562.445 participantes e 36.727 eventos cardiovasculares.
 
Além disso, os pesquisadores agruparam os dados de seis estudos que envolviam 754.873 voluntários e 85.906 mortes durante um período médio de monitoramento de nove anos e meio para avaliar a associação entre o consumo de alimentos fritos e mortes por doenças cardiovasculares.
 
O consumo de alimentos fritos pode contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares
 
O estudo concluiu que o consumo de alimentos fritos pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares.
 
Entre os achados, foi observado que o alto consumo de alimentos fritos aumentou o risco dos principais eventos cardiovasculares em 28%, de doença arterial coronariana em 22% e de insuficiência cardíaca em 37%. Já o risco de acidente vascular cerebral, mortalidade cardiovascular ou mortalidade por outras causas não foi significativo.
 
A análise também indicou que esse risco aumenta com a adição semanal de uma porção de alimentos fritos. Nesse caso, o equivalente a 114 g contribui com um aumento de 3% no risco de desenvolver os principais eventos cardiovasculares, de 2% para doença arterial coronariana e 12% para insuficiência cardíaca.
 
Os pesquisadores esclarecem que vários dos estudos analisados consideraram apenas o consumo de um tipo de alimento frito (por exemplo: peixe, batata ou salgadinho), mas não o total de alimentos fritos, sugerindo que isso pode ter subestimado a associação. De qualquer forma, eles acreditam que o efeito adverso do consumo de alimentos fritos independe do tipo de alimento.
 
Nenhuma associação foi encontrada para mortes por doenças cardiovasculares ou por qualquer outra causa, mas isso pode ter acontecido devido ao número relativamente pequeno de estudos encontrados. Portanto, os pesquisadores concluíram que existe uma associação entre a ingestão de alimentos fritos e doenças cardiovasculares, porém mais investigações são necessárias para examinar a associação com a insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral e mortalidade por doenças cardiovasculares.
 
Como os alimentos fritos podem contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares?
 
A partir desse estudo também podemos questionar como os alimentos fritos podem influenciar o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Isso não está totalmente claro, mas os pesquisadores sugerem algumas explicações. De acordo com eles, os alimentos fritos:
 
  1. Geralmente contêm grandes quantidades de gordura, o que pode elevar a densidade energética dos alimentos, como também torná-los mais palatáveis. Isso pode levar a um maior consumo e contribuir para o excesso de peso e a obesidade, fatores de risco para as doenças cardiovasculares.
  2. Podem ser compostos por ácidos graxos trans, um tipo de gordura muito presente em alimentos industrializados, nas margarinas e na gordura vegetal hidrogenada e que está associada ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
  3. Podem aumentar os níveis de produtos de oxidação de colesterol que estão envolvidos na resposta inflamatória e afetar a saúde do coração.
  4. Em boa parte são alimentos ultraprocessados, que apresentam gorduras em excesso e grandes quantidades de sódio, nutriente que contribui para a hipertensão, um dos fatores de risco para as doenças cardiovasculares.
Então, cortar frituras é a solução?
 
Esses achados podem ter implicações importantes para as recomendações relacionadas à alimentação e nutrição, indicando que os alimentos fritos não devem ser a base das nossas escolhas alimentares.
 
Mas é bom deixar claro que "cortar" as frituras não é a solução para o problema. Devemos sim diminuir seu consumo e comer mais alimentos in natura de todos os grupos alimentares. Mas restringir não é a solução. Como já disse em outros momentos, restrição leva a um maior desejo por comida.
 
Quanto mais vemos as frituras como vilãs e nos sentimos proibidos de comê-las, mais desejamos esses alimentos e corremos o risco de consumi-los em excesso, que é o problema maior.
 
O melhor a ser feito é mudar nossa relação com a comida, entendendo que não existem alimentos proibidos e permitidos e que podemos comer de tudo, mas não tudo!
 
Assim, podemos fazer melhores escolhas alimentares, comer de acordo com o contexto (veja só, comer um pastel na hora do almoço não parece tão adequado, mas na festa de aniversário, sim!), exagerar menos e viver em paz com a comida!

Bon appétit!
 

Fonte: UOL

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